adorei essa manhã
olhei pela janela
e parecia uma balada
uma música lenta
quase fria
que me trouxe você
e eu nem sei dançar
e eu nem sei dançar
hora de comemorar
dia sem problemas
tão raro, tão caro
uma música lenta
quase ria
e me trouxe você.
adorei essa manhã
olhei pela janela
e parecia uma balada
uma música lenta
quase fria
que me trouxe você
e eu nem sei dançar
e eu nem sei dançar
hora de comemorar
dia sem problemas
tão raro, tão caro
uma música lenta
quase ria
e me trouxe você.
farfalha como o vento
pelos vitrais embaçados
e os olhos medonhos
alimentam seus seios
bela menina chorosa
se despe como brisa
suave e fria
já não quer sonhos
translúcida brilha
entre os cristais desbotados
numa manhã falha
e inesquecível.
e com essa tranquilidade
proclamam-me descartável?
mal temo o ecoar
da ira das vozes
de mil vozes sutis
dizendo da mágoa
que teimei sufocar
o artifício é a confissão
a entrega do crime pelo criminoso
sou demais propensa a me acusar
sim, te amei e amo!
sou cruel e egoísta por sentir
e na altura de minha inconstância
passei por teus estados
e segui-te cega e benevolente
à minha revolta impus silêncio
curvei-me à lei de todos
e não nego os excessos
não espero teu zelo
ou teu perjúrio
aplicai-me teu selo
castigue-me se te apraz
só resta a pena.
se gritar meu nome
com voz ocre
e fingir que não ouço
deitada sob seu peito
agudo e só, não me culpe
o silêncio é fardo
das dores que trago
como os golpes
que me infligira
ainda em seu ventre
por não chorar me calo
antes que me estupre.
quando um vulto incauto
tomar-te os olhos
e prender tua fala
não chore
ele mal te olha
e nele não há glória
há só o medo
nas sombras de Goya.
como astro de luz que teima
ascende por onde é frio
atreve-se desconhecido
recolhe ânsias alheias
em castelos bélicos
em cinzas que evaporam
porque veio para ser livre
e como um cometa
rasga os céus
de fevereiro a fevereiro
deixando-se feito rasto
reluz sêmen da vontade
e não cessa, brilha
não era para ser
não era
a vida é de nunca
acostumei-me com dores
elas me fazem companhia
há períodos que me vem
nem raio de luz
nem trovão
de meia estação
hospeda-se completo
entre amplexo e átrio
e feito milagre ateu
faz manhãs cantarem
dentro de um peito calado
o meu.
fui viajante em vernáculo ambíguo
e foi-se o tempo que me entregava
à bruma torpe e nevoada dele
ou a retóricas ambíguas e desencontradas
feito bromélia deixo-me molhar
e guardo em mim água alheia
a mágoa é raiz forte, meu amor
permanece grudada em terreno duro
caminho olhando para o céu, não nego
ele é tão imenso e tentador
que quase me convence
que o melhor seria voar
e quando dou por mim, sou bípede
dois pés de rocha bem presos ao chão
a palavra ludibria é pau e prego
e crucifica ingênuos.
nem é o ar que respiro
não valho me de romantismos
beira a loucura somática
o sufocar que aspiro
é esse soluço engasgado
na ausência de sua cura.
que ela ria sem pausas
a senhora da guerra
e dentre seus fetiches
estava a destruição
de terras
vá godiva a cavalgar
nua e sorridente
o cavalo da paranoia
lambe a febre humana
pertinente
arfante e em delírio
cubra as coisas de negro
rasgue tudo que tem asas
Goya chora entre óleos
sua amada em martírio.
pressão alta
dezessete por onze
densidade oculta
em sonho de vedete
quem sabe assim me lance
no espaço oculto
que mal me cabe
e me engana
quero me prostituir
deitar-me nua
seu colo quente
quem sabe agora
esse canto seja ouvido
mesmo que como um gemido
de quem chora pra quase sorrir.
enquanto esses olhos chora
mas vísceras já não sangram
foram despejados da morada
não habitam mais meu coração
se quero do outro me calo diante dele
transmuto-me Carmem
travestida em lábios carmim
quem dera saber ser eu
não sofrer mais
não mais sentir
quem dera...não mais carmim!
rogo para que essas mãos
e essa carne encardidas
não mais te enganem
estou distante de tudo
já não tenho compromisso
com a verdade plena
ou reservas para paixões tardia
as promessas se calaram numa ópera sofrida
e aquele olhar impetuoso
não me pertencem mais.
um ser, um espectro
o que há pra se dizer
senão a anti-cura de notas
afastadas de si
dispersas por nãos
abandonados no acostamento
de estradas desertas
desfeitos os sonhos inocentes
a vida segue
seca como não deveria
deixar de ser
de tudo sobra-nos a lama
água rubra e turva
de terra e sangue
no Planalto Central.
havia um vulto alaranjado que frigia
manhã silenciosa, vi o dia nascendo
nada fácil prender os olhos no horizonte
quando há tanto cansaço, pálpebras pesadas
e nenhuma missão ou promessa cumprida
porque as coisas se arrastam como relógios
com pouca corda, quantas cordas
quanta poesia é necessária?
mal sei daquele primeiro raio que chegou atrasado
que deveria ter brotado há tanto tempo atrás.
deixaram meu amor brotar
e ser muito sereno
no chão, no sal da terra
na crença de ser calmo
é pele rachada
o rio seco segue cego pela chapada
é tanto que nem é, desemboca no vazio
a fé segue lenta, escorre e afunda
na pele rasgada
juro não perder mais onde vai a estrada
juro que nem quero mais aquela madrugada
espero deixar meu amor crescer, florescer
e ser tranquilo ou quem sabe nada
e é a fé que corre, a fé que gira e move
nascer, crescer, viver, perder,
morrer, renascer, morrer
da pele rasgada
espelho torpe aura amargurada
pão e vinho, partir-se em ceia equivocada
rasgar-se então, doar-se em vão
beber da fonte e pagar com a escarrada.
hoje perdi o encanto
em alguma visão
entre o retaliar e piscar
sob um ato de tortura
e covarde fugi dos olhos
daquele que me torturou
não há bravura no amar
e esse amor só me destrói
implode meu orgulho
sem me trazer nada
que não seja a vergonha
de ser o que sou.
quadro a quadro
sem foco em silêncio
com a ausência
de sim e não
o desistir do verbo
o calar da voz
antes das palavras
somos filme mudo
não há canção que não saiba tocar
ou notas latentes que teus dedos
não alcancem e teus ouvidos
não distingam harmônicos
por um dia sonhou como Ícaro
fazer tuas asas de pesares, penas e cera
sobrevoar o mundo inteiro com a alma de pluma
e com teu violão de aço e madeira
hoje, corre sobre asfalto com tua moto velha
visitando os buracos que as chuvas abriram
e chora com elas em segredo para que não percebam
tudo o que te fere, te priva e te castra
tua dor teimosa vibra e ecoa pelos cantos surdos
junto com hálito que desperdiça nos acordes
que compõe para o esquecimento que invade
janelas e pupilas há muito dilatadas pela mentira
e agarrado à sua verdade pura e inocente, segue
isolado feito monstro amanhecido e exposto
procurando expiar-se em alamedas onde o amor esfria
e o prazer custa menos que o cansaço dos teus olhos
é muso de uma poeta que mal fala e esgueira-se
pelos campos da vergonha inócua por não
poder-te alcançar e muito menos diminuir a dor que sente
mas deflora o deserto do Planalto Central para ouvir-te
já não há espelhos em tua casa e o brilho das manhãs
não tocam mais teus prismas pernoitados, sem reflexo
a alma pesa mais que uma tonelada e quase nada sobrevive
à tua crença corrosiva que teima em manter-se etílica.
já não importa quão frias
tenham sido essas últimas noites
nem o quanto aprendi estando
ao seu lado ouvindo suas histórias
presenciei a mais bela chuva
nos céus de ontem, sozinha
esperando apenas o brilho de Sírius
que não veio aqui
a terra está fecunda sob um céu calado
que caprichosamente só brilha
como os olhos de quem ama
quem se importa se esse céu está iludido
e se as estrelas brilham sem explicação
vãs, presas num absurdo vácuo e choram?
não nasci com aura de deusa grega
e muito menos como ser mitológico
dos grandes que nascem para ser Deuses
não sou “semi” nada, sou humana,
quero, quedo e castro
e só assim sei amar
não desejo ter posse de estrelas
elas são frias e estão tão longe
sou grata por seu brilho deitar sobre meu ventre
e me fazer mulher, mãe e muda
sim, sou a poeira vermelha do Planalto Central
essa que se revolta com o vento e volta
para si para dar nova vida, cara semente
sou pó de estrelas, foice e dor
e já não vivo de sonhos
faz tempo que não durmo
despertei há anos e esqueci de adormecer
desde então minha data é 13 de maio
e não me pergunte porque
não ousaria querer mudar o curso
nem a órbita das coisas
elas são como são
e ninguém aprende nada
somos o que somos
estou aqui e não esqueço
o caminho de volta.
nesse tempo lento
ando de mão com o tempo
que deu-me um abraço ausente
para suportar a desordem
meu poeta espreita-me
pelas frestas do caos
e sem sucumbir compõe-me:
nãos, versos e súplicas
e bem antes de ver o céu queimar
dispensa acordes certos e foge
dos dias que hão de raiar
não chora, para não mais sorrir
quem mais seguiria meus passos
nessas ruínas sitiadas
nessa cidade de pedras
cimento, pó e desistências?
segue-me de olhos perplexos
na envergadura desse medo
que insiste em nos pregar peças
e cada vez mais nos afastar
eu de boca fechada e olhos vendados
por ignorância e pouca razão
seguirei meus sentidos
sem dar ouvidos ao meu coração
mesmo reduzida à poeira
sobreposta e confinada naquele pote
rodeada de outros iguais
identificada apenas por uma etiqueta
sentiu-se eterna
mas num ato jogou as cinzas ao vento
descartando-lhe a essência
como se fossem apenas pó
e elas ainda trazem sonho de eternidade
agora, a urna vazia permanecerá ali
posta em uma prateleira
como se fosse um bibelô
como se não passasse de um troféu
a palavra "amo" está presa e ainda pesa
tanto quanto vale: um cancro ou uma tonelada
queima, fere, dizima quem a ouve
o sol continuará a nascer e a cremar
os cadáveres do meio do caminho
pois o essencial se esquece com o tempo
se perde no meio de bobagens pueris
e tudo é tão efêmero:
cinzas dispersas não têm orgulho
uma urna vazia não tem prazer
e o vento continua soprando ileso.
guardaria meus deuses e mitos em voz baixa se o hedonismo me permitisse brandura e compaixão, mas não funciono assim. as palavras que afagam...