quarta-feira, 29 de abril de 2026

hermosa


adorei essa manhã

olhei pela janela

e parecia uma balada

uma música lenta

quase fria

que me trouxe você

e eu nem sei dançar

e eu nem sei dançar

hora de comemorar

dia sem problemas

tão raro, tão caro

uma música lenta

quase ria

e me trouxe você.

terça-feira, 28 de abril de 2026

la mujer y la ventana


farfalha como o vento 

pelos vitrais embaçados 

e os olhos medonhos 

alimentam seus seios 

 

bela menina chorosa 

se despe como brisa 

suave e fria 

já não quer sonhos 

 

translúcida brilha 

entre os cristais desbotados 

numa manhã falha 

e inesquecível. 

segunda-feira, 27 de abril de 2026

debitum


e com essa tranquilidade

proclamam-me descartável?

mal temo o ecoar

da ira das vozes

de mil vozes sutis

dizendo da mágoa

que teimei sufocar

o artifício é a confissão

a entrega do crime pelo criminoso

sou demais propensa a me acusar

sim, te amei e amo!

sou cruel e egoísta por sentir

e na altura de minha inconstância

passei por teus estados

e segui-te cega e benevolente

à minha revolta impus silêncio

curvei-me à lei de todos

e não nego os excessos

não espero teu zelo

ou teu perjúrio

aplicai-me teu selo

castigue-me se te apraz

só resta a pena.

sábado, 25 de abril de 2026

casca


se gritar meu nome

com voz ocre

e fingir que não ouço

deitada sob seu peito

agudo e só, não me culpe

o silêncio é fardo

das dores que trago

como os golpes

que me infligira

ainda em seu ventre

por não chorar me calo

antes que me estupre.

sexta-feira, 24 de abril de 2026

pintura negra


quando um vulto incauto

tomar-te os olhos

e prender tua fala

não chore

ele mal te olha

e nele não há glória

há só o medo

nas sombras de Goya.

quinta-feira, 23 de abril de 2026

corpo celeste


como astro de luz que teima

ascende por onde é frio

atreve-se desconhecido

recolhe ânsias alheias

em castelos bélicos

em cinzas que evaporam

porque veio para ser livre

e como um cometa

rasga os céus

de fevereiro a fevereiro

deixando-se feito rasto

reluz sêmen da vontade

e não cessa, brilha

não era para ser

não era

a vida é de nunca

acostumei-me com dores

elas me fazem companhia

há períodos que me vem

nem raio de luz

nem trovão

de meia estação

hospeda-se completo

entre amplexo e átrio

e feito milagre ateu

faz manhãs cantarem

dentro de um peito calado

o meu.

quarta-feira, 22 de abril de 2026

bípede


fui viajante em vernáculo ambíguo

e foi-se o tempo que me entregava

à bruma torpe e nevoada dele

ou a retóricas ambíguas e desencontradas

feito bromélia deixo-me molhar

e guardo em mim água alheia

a mágoa é raiz forte, meu amor

permanece grudada em terreno duro

caminho olhando para o céu, não nego

ele é tão imenso e tentador

que quase me convence

que o melhor seria voar

e quando dou por mim, sou bípede

dois pés de rocha bem presos ao chão

a palavra ludibria é pau e prego

e crucifica ingênuos.

terça-feira, 21 de abril de 2026

psicotrópico


nem é o ar que respiro

não valho me de romantismos

beira a loucura somática

o sufocar que aspiro

é esse soluço engasgado 

na ausência de sua cura.

segunda-feira, 20 de abril de 2026

dama negra


que ela ria sem pausas

a senhora da guerra

e dentre seus fetiches

estava a destruição

de terras

vá godiva a cavalgar

nua e sorridente

o cavalo da paranoia

lambe a febre humana

pertinente

arfante e em delírio

cubra as coisas de negro

rasgue tudo que tem asas

Goya chora entre óleos

sua amada em martírio.

quinta-feira, 16 de abril de 2026

grito


pressão alta

dezessete por onze

densidade oculta

em sonho de vedete

quem sabe assim me lance

no espaço oculto

que mal me cabe

e me engana

quero me prostituir

deitar-me nua

seu colo quente

quem sabe agora

esse canto seja ouvido

mesmo que como um gemido

de quem chora pra quase sorrir.

terça-feira, 14 de abril de 2026

Mérimée


enquanto esses olhos chora

mas vísceras já não sangram

foram despejados da morada

não habitam mais meu coração


se quero do outro me calo diante dele

transmuto-me Carmem

travestida em lábios carmim


quem dera saber ser eu

não sofrer mais

não mais sentir


quem dera...não mais carmim!


rogo para que essas mãos

e essa carne encardidas

não mais te enganem

estou distante de tudo


já não tenho compromisso

com a verdade plena

ou reservas para paixões tardia


as promessas se calaram numa ópera sofrida

e aquele olhar impetuoso

não me pertencem mais.

domingo, 12 de abril de 2026

água vermelha


um ser, um espectro

o que há pra se dizer

senão a anti-cura de notas

afastadas de si

dispersas por nãos

abandonados no acostamento

de estradas desertas

desfeitos os sonhos inocentes

a vida segue

seca como não deveria

deixar de ser

de tudo sobra-nos a lama

água rubra e turva

de terra e sangue

no Planalto Central.

sábado, 11 de abril de 2026

perjúrio


 

havia um vulto alaranjado que frigia

manhã silenciosa, vi o dia nascendo

nada fácil prender os olhos no horizonte

quando há tanto cansaço, pálpebras pesadas

e nenhuma missão ou promessa cumprida

porque as coisas se arrastam como relógios

com pouca corda, quantas cordas

quanta poesia é necessária?

mal sei daquele primeiro raio que chegou atrasado

que deveria ter brotado há tanto tempo atrás.

quinta-feira, 9 de abril de 2026

promessa


deixaram meu amor brotar

e ser muito sereno

no chão, no sal da terra

na crença de ser calmo

é pele rachada

o rio seco segue cego pela chapada

é tanto que nem é, desemboca no vazio

a fé segue lenta, escorre e afunda

na pele rasgada

juro não perder mais onde vai a estrada

juro que nem quero mais aquela madrugada

espero deixar meu amor crescer, florescer

e ser tranquilo ou quem sabe nada

e é a fé que corre, a fé que gira e move

nascer, crescer, viver, perder,

morrer, renascer, morrer

da pele rasgada

espelho torpe aura amargurada

pão e vinho, partir-se em ceia equivocada

rasgar-se então, doar-se em vão

beber da fonte e pagar com a escarrada.

terça-feira, 7 de abril de 2026

desmanche


hoje perdi o encanto

em alguma visão

entre o retaliar e piscar

sob um ato de tortura

 

e covarde fugi dos olhos

daquele que me torturou

não há bravura no amar

e esse amor só me destrói

 

implode meu orgulho

sem me trazer nada

que não seja a vergonha

de ser o que sou.

domingo, 5 de abril de 2026

película

 

quadro a quadro

sem foco em silêncio

com a ausência

de sim e não

o desistir do verbo

o calar da voz

antes das palavras

somos filme mudo

sábado, 4 de abril de 2026

balada para um compositor desistente


não há canção que não saiba tocar

ou notas latentes que teus dedos

não alcancem e teus ouvidos 

não distingam harmônicos

por um dia sonhou como Ícaro

fazer tuas asas de pesares, penas e cera

sobrevoar o mundo inteiro com a alma de pluma

e com teu violão de aço e madeira

 

hoje, corre sobre asfalto com tua moto velha

visitando os buracos que as chuvas abriram 

e chora com elas em segredo para que não percebam

tudo o que te fere, te priva e te castra 

 

tua dor teimosa vibra e ecoa pelos cantos surdos

junto com hálito que desperdiça nos acordes

que compõe para o esquecimento que invade

janelas e pupilas há muito dilatadas pela mentira

 

 

e agarrado à sua verdade pura e inocente, segue

isolado feito monstro amanhecido e exposto

procurando expiar-se em alamedas onde o amor esfria

e o prazer custa menos que o cansaço dos teus olhos

 

é muso de uma poeta que mal fala e esgueira-se 

pelos campos da vergonha inócua por não

poder-te alcançar e muito menos diminuir a dor que sente

mas deflora o deserto do Planalto Central para ouvir-te

 

já não há espelhos em tua casa e o brilho das manhãs

não tocam mais teus prismas pernoitados, sem reflexo

a alma pesa mais que uma tonelada e quase nada sobrevive

à tua crença corrosiva que teima em manter-se etílica.

sexta-feira, 3 de abril de 2026

"Dominus Saturnus"


já não importa quão frias

tenham sido essas últimas noites

nem o quanto aprendi estando

ao seu lado ouvindo suas histórias

presenciei a mais bela chuva

nos céus de ontem, sozinha

esperando apenas o brilho de Sírius

que não veio aqui 

a terra está fecunda sob um céu calado

que caprichosamente só brilha

como os olhos de quem ama

quem se importa se esse céu está iludido

e se as estrelas brilham sem explicação

vãs, presas num absurdo vácuo e choram?

não nasci com aura de deusa grega

e muito menos como ser mitológico

dos grandes que nascem para ser Deuses

não sou “semi” nada, sou humana,

quero, quedo e castro

e só assim sei amar

não desejo ter posse de estrelas

elas são frias e estão tão longe

sou grata por seu brilho deitar sobre meu ventre

e me fazer mulher, mãe e muda

sim, sou a poeira vermelha do Planalto Central

essa que se revolta com o vento e volta

para si para dar nova vida, cara semente

sou pó de estrelas, foice e dor

e já não vivo de sonhos

faz tempo que não durmo

despertei há anos e esqueci de adormecer

desde então minha data é 13 de maio

e não me pergunte porque

não ousaria querer mudar o curso

nem a órbita das coisas

elas são como são

e ninguém aprende nada

somos o que somos

estou aqui e não esqueço

o caminho de volta.

quinta-feira, 2 de abril de 2026

perdida


nesse tempo lento

ando de mão com o tempo

que deu-me um abraço ausente

para suportar a desordem

meu poeta espreita-me

pelas frestas do caos

e sem sucumbir compõe-me:

nãos, versos e súplicas

e bem antes de ver o céu queimar

dispensa acordes certos e foge

dos dias que hão de raiar

não chora, para não mais sorrir

quem mais seguiria meus passos

nessas ruínas sitiadas

nessa cidade de pedras

cimento, pó e desistências?

segue-me de olhos perplexos

na envergadura desse medo

que insiste em nos pregar peças

e cada vez mais nos afastar

eu de boca fechada e olhos vendados

por ignorância e pouca razão

seguirei meus sentidos

sem dar ouvidos ao meu coração

quarta-feira, 1 de abril de 2026

eterna


mesmo reduzida à poeira

sobreposta e confinada naquele pote

rodeada de outros iguais

identificada apenas por uma etiqueta

sentiu-se eterna

mas num ato jogou as cinzas ao vento

descartando-lhe a essência

como se fossem apenas pó

e elas ainda trazem sonho de eternidade

agora, a urna vazia permanecerá ali

posta em uma prateleira

como se fosse um bibelô

como se não passasse de um troféu

a palavra "amo" está presa e ainda pesa

tanto quanto vale: um cancro ou uma tonelada

queima, fere, dizima quem a ouve

o sol continuará a nascer e a cremar

os cadáveres do meio do caminho

pois o essencial se esquece com o tempo

se perde no meio de bobagens pueris

e tudo é tão efêmero:

cinzas dispersas não têm orgulho

uma urna vazia não tem prazer

e o vento continua soprando ileso.

valentia

guardaria meus deuses e mitos em voz baixa se o hedonismo me permitisse brandura e compaixão, mas não funciono assim. as palavras que afagam...