sábado, 4 de abril de 2026

balada para um compositor desistente


não há canção que não saiba tocar

ou notas latentes que teus dedos

não alcancem e teus ouvidos 

não distingam harmônicos

por um dia sonhou como Ícaro

fazer tuas asas de pesares, penas e cera

sobrevoar o mundo inteiro com a alma de pluma

e com teu violão de aço e madeira

 

hoje, corre sobre asfalto com tua moto velha

visitando os buracos que as chuvas abriram 

e chora com elas em segredo para que não percebam

tudo o que te fere, te priva e te castra 

 

tua dor teimosa vibra e ecoa pelos cantos surdos

junto com hálito que desperdiça nos acordes

que compõe para o esquecimento que invade

janelas e pupilas há muito dilatadas pela mentira

 

 

e agarrado à sua verdade pura e inocente, segue

isolado feito monstro amanhecido e exposto

procurando expiar-se em alamedas onde o amor esfria

e o prazer custa menos que o cansaço dos teus olhos

 

é muso de uma poeta que mal fala e esgueira-se 

pelos campos da vergonha inócua por não

poder-te alcançar e muito menos diminuir a dor que sente

mas deflora o deserto do Planalto Central para ouvir-te

 

já não há espelhos em tua casa e o brilho das manhãs

não tocam mais teus prismas pernoitados, sem reflexo

a alma pesa mais que uma tonelada e quase nada sobrevive

à tua crença corrosiva que teima em manter-se etílica.

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