sexta-feira, 3 de abril de 2026

"Dominus Saturnus"


já não importa quão frias

tenham sido essas últimas noites

nem o quanto aprendi estando

ao seu lado ouvindo suas histórias

presenciei a mais bela chuva

nos céus de ontem, sozinha

esperando apenas o brilho de Sírius

que não veio aqui 

a terra está fecunda sob um céu calado

que caprichosamente só brilha

como os olhos de quem ama

quem se importa se esse céu está iludido

e se as estrelas brilham sem explicação

vãs, presas num absurdo vácuo e choram?

não nasci com aura de deusa grega

e muito menos como ser mitológico

dos grandes que nascem para ser Deuses

não sou “semi” nada, sou humana,

quero, quedo e castro

e só assim sei amar

não desejo ter posse de estrelas

elas são frias e estão tão longe

sou grata por seu brilho deitar sobre meu ventre

e me fazer mulher, mãe e muda

sim, sou a poeira vermelha do Planalto Central

essa que se revolta com o vento e volta

para si para dar nova vida, cara semente

sou pó de estrelas, foice e dor

e já não vivo de sonhos

faz tempo que não durmo

despertei há anos e esqueci de adormecer

desde então minha data é 13 de maio

e não me pergunte porque

não ousaria querer mudar o curso

nem a órbita das coisas

elas são como são

e ninguém aprende nada

somos o que somos

estou aqui e não esqueço

o caminho de volta.

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