domingo, 29 de março de 2026

invenção


enquanto inventa o cais

estou à deriva

enquanto inventa o caos

sou morte lenta

e se por acaso a mancha

vermelha no vestido

insistir

pela morte violenta

que causara

mira a penumbra

e meus olhos banais

que se inventa guerras

hei de sofrer de ais

por que me tomas


de maneira tão prolixa

com essa força na estrutura?

como se fosses dura

e ao mesmo te dobras

em meu cerne venal?

explícita revelas o riso

como quem quer morder

e doas a rachadura

como quem perpetra o caos

ilícita te entregas em becos

nada nobres e de beleza surreal!

sábado, 28 de março de 2026

pássaro no chão


poderia ser livre

nenhuma asa quebrada

preso por vontade própria

fui mais um cativo

foi só uma noite

talvez um dia

mantive-me apertado

enquanto pude

entre seus abraços

pés na terra

retinas nas nuvens

tudo tão lindo

tanto a dizer

e conjugar a liberdade:

eu livro você

e assim me liberta

quinta-feira, 26 de março de 2026

inútil


esse mito outrora rouco explode

colide com a terra vermelha do planalto central

agoniza depois de grave acidente e

jaz encolhido, torto numa cidade satélite

vejo que meu grito foi um eco que o tempo

dispersou e levou para longe de mim

para longe de todos os ouvidos inertes

e que minha retórica minguou, falhou feio

ah, essa rebeldia de mil faces calou aqui

já não lateja impune como antes e ignora

que a estrada é tão longa

que o tempo é tão pouco

percebo que as falas mais agudas silenciaram

recolhidas e reféns de gavetas esquecidas

ou dispersas em livros com páginas amareladas

na frieza de bibliotecas públicas ou particulares.

quarta-feira, 25 de março de 2026

das dores e nãos


ah, meu amor, é o motivo dessa lágrima 

desse sufocar, desse roxear da pele 

quantas vezes quis seu beijo 

e calei na ânsia por saber medir 


e não pedir a distância que nos separa 

é ínfima e enorme em dor, 

somos atemporais é o sacrifício 

para qualquer redenção 

e traz em seus olhos 

todos meus desejos 


como é solitário viver acompanhado 

dividido pelo suplício 

do silêncio querendo gritar 

o que pulsa por dentro 

o que ferve a língua 

e engasga o vento 

segunda-feira, 23 de março de 2026

na vigilância discreta


quem sabe me esqueça

do que lateja

dores infindas de cobiça

carimbadas em olhos negros

sem retina

sem menina

eu

vazia por vontade

a angústia

de tua dinastia

avesso de overdose

sou embuste ambulante

sem personalidade

falo-te de teus rastros

dos hinos de adorar

dos mastros que fincaste

em minhas artérias

não há bandeiras

nem frontes

figas ou figueiras

nessa seringa

de ser

por hora

insira o silêncio

nesse tumbeiro de sonhos

que tornou-se paralisia.

domingo, 22 de março de 2026

poema da desimportância


nada está em ordem

o hábito não é bom

e o silêncio é maculado

os mantras de Manoel de Barros

ecoam nas desimportâncias

e estou diante de mim

com braços sobre meu peito

 

tudo é menor

e desimportante

por certo somos

coisas cheias

de um vazio redundante

como se todo o tanto

mal bastasse

 

meu diário é prólogo

de desimportâncias valiosas.

 

sexta-feira, 20 de março de 2026

há sombras


deleite de meia

noite e meia

passeiam em quarto

minguante eu

vazam pelas paredes

e se enforcam

na luz

que vem de fora

quinta-feira, 19 de março de 2026

o segredo das matrioskas

hei de propagar com fé

idílica e profana seu nome nada pagão

vangloriar a assimétrica imperfeição

e as dádivas ocultas da vida

ouvi o dono da noite num chamado

ecoado da sua cantiga vívida que modificava urais

pedindo que ressoassem sua obra pura

hei de ocultar-lhe em versos visíveis

livres da visão atormentada dos que

não têm louro ou serventia

entoarei uma divindade moura que ele ostenta

e dirão que deuses são mudos

para manter o mistério do silêncio

e cada vez que calo é seu o segundo morto

o que sinto é hábil tom destoante

o seu nome distinto e escondido em si.

terça-feira, 17 de março de 2026

o sonho de Lilith


veio pela fumaça cavalgando Cérbero

altiva e por hora a chamarei de Hécate

a guardiã escarlate das portas do inferno

há quem diga que tem asas

que seus cabelos longos

e vermelhos como fogo

trazem um aroma de inexplicável

de sêmen e mirra

o desejo passivo nos olhos

travestia seu coração de pedra

afeita a tomar falos em contrações

que de tão violentas eram castrantes

quem há de se olhar refletido

nesse espelho de mil faces

sem que a deseje e se sinta impotente

enquanto o peito esmagado arfa

e o sorriso debochado estremece?

domingo, 15 de março de 2026

horas inteiras


o movimento dos ponteiros de segundos

perduram entre os sorrisos falsos

sobre o piano calado

todos datam a eternidade

 

quem dera a velocidade dos carros

desse o compasso do tempo

preso nas celas por cordas

de minha goela seca

 

não há amor na revolução

há apenas retratos mudos

desbotados pela distância

e por lembranças deturpadas

 

quem dera essas balas do tambor

de meu revolver fossem palavras

e estourassem o vazio do tic-tac

que trago em minha cabeça

sábado, 14 de março de 2026

desvario


não vou dizer que não sofri

que não chorei noites inteiras

no escuro e sufoquei meu grito

nos cantos do travesseiro

para calar o sofrimento e fingir

o problema não é o sonho

nem as ilusões que ele promove

quando se está entorpecido

o que rasga mesmo é a realidade

o crescer todos os dias

não vou dizer que não sabia

quando me diziam: “parado aí”

nem direi que não via

quando me esperava dormir

para levantar da cama e fugir

o problema não é a dor

nem as lágrimas que ela aflora

quando se está entorpecido

o que rasga é a realidade

o morrer todos os dias

não vou dizer que não aprendo

que me resumo apenas ao existir

mas essa existência fria

só traz horizontes tardios

e um jeito novo de engolir o choro

sexta-feira, 13 de março de 2026

hora das horas


confesso que amei-te

por míseros três dias

e duas noites

talvez use esse tempo

pra causar-me mais

alguma ferida

e debaixo de meu seio

esquerdo ainda amo-te

vinho e tinta

nessa noite de lua

quem nos fará mal

além de nós mesmos

se somos invencíveis?

quarta-feira, 11 de março de 2026

sangria

 

estendi meus braços baldios

como quem devolve a vida

beijei-te o colo e tuas feridas

estanquei tua dor e teus vazios

e como quem nada quer saí

numa fuga doce e insólita

mas desorientada caí no chão

no levante de poeira chorei

tomei-me como forte

continuei fraquejando

e sem erguer os olhos

foi saindo

é este cancro que me dilacera

essa vontade desmedida

que berra como latejar

de doença bandida que corrói

e tuas feridas me tomando

sem tábuas de salvação

te vi saindo

e trancava a porta da frente

terça-feira, 10 de março de 2026

ironia


meus erros definem

quem eu sou

diz se há glória

ou fracasso

eu digo que uma visão

dentro de um limite

cognitivo

jamais poderia

cercar o certo e o errado

ou qualquer outra

dicotomia

segunda-feira, 9 de março de 2026

mortalhas




vê com altivos olhos
as faixas que se dobram
e se elevam

ao estágio mais puro

do nada

navegue pelo caos interno

onde as brumas já não

levam ao cais

ou embalam o espírito,

faminto

percebe que é tão pouco

o que detém e que mesmo assim

consegue decepcionar todos

que esperam algo de ti,

fracassado

mal pode supor que o intento

é forte quase muralha

e a vontade é fraca

peito-papel na água,

mágoa

e são tantas calhas

pois o espírito crê

e a carne é falha

velha e gasta,

canalha

domingo, 8 de março de 2026

rendez-vous


de minha origem 

pouco sei

pai comerciante

mãe costureira

ele doava o tecido

e ela o costurava

talvez por isso

o alinhavo

linhagem

de casta indefinida

nada sei. 

sábado, 7 de março de 2026

sexta-feira, 6 de março de 2026

quinta-feira, 5 de março de 2026

Medusa


as pétalas de seus olhos desceram

por minha rubra face

instalaram-se entre minhas clavículas

como aperto de polegares em asfixia

ver o que vi em todas as outras

e não supor que era assim tão óbvia

só nos ferem os que amamos

mea culpa, não tomei nenhuma precaução

quebro uma promessa que fiz e peço

que me deixe agora

que não congele minhas resistências

nem estilhace o que restou

um espinho ainda está na garganta

não me olhe mais, nunca mais

quero permanecer pedra

por saber que mal maior é a esperança

terça-feira, 3 de março de 2026

infecção


se reclama do excesso

posso dizer que sou réu confesso

fazer o que de maneira justa?

isso existe ao me olhar

na lona

com sua glória-augusta?

prepara-se então pra voar solo

que esse é o efeito

de quem pisa pra espatifar

e se acha que me afasta

saiba que não saio do lugar

só mudo a forma de agir

lembranças?

elas são lindas em álbuns

e só isso me sobra

e não é de hoje

mas o dito sim, me ultraja

supõe que choro por perdas?

não, não, meu caro

choro para encontrar-me.

segunda-feira, 2 de março de 2026

subentendido


doeu, eu sei, mas isso é ter forçado

e esse intento feito tinta

em tela nova

deixa pra pensar

amanhã pela manhã

vem povoar meus pensamentos 

correndo o risco de ser abstrato

que amores anteriores foram

os atuais são

e os futuros virão

deixa a vida seguir seu rumo 

não tem mais sentido o passado

vem que as coisas urge

me estar livre é apelo antigo

para um presente que nos tem.

valentia

guardaria meus deuses e mitos em voz baixa se o hedonismo me permitisse brandura e compaixão, mas não funciono assim. as palavras que afagam...