terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

álbum de fotografias


quanta sorte sonhar quando se é verde

não gosto de falar de minha infância

não há atos nobres nessa época

o que tenho certeza é que queria

crescer logo e me livrar da caolhice

do manco de pés tortos

da aparência desengonçada

e da opressão dos adultos

mal sabia eu que a miopia aumentaria

que os pés continuariam tortos

que a aparência piora com a idade

mal sabia que a opressão maior

é a da realidade e não dos velhos

mal sabia que ser cuidada e oprimida

é mais acolhedor que ser ignorada

ou ser preterida

não me recordo de tempos para sonhar

havia um medo velado em meus olhos miúdos

e um silêncio imposto

naquela casa sempre cheia de visitas importantes

era proibido correr

dizer palavrões ou se manifestar

ali criança não tinha vez

pular o muro e viver uma alegria clandestina

rendeu-me ora a cinta ora a palmatória

quem dera ter tido a glória

de saborear da liberdade

luxo seria ser uma criança

numa casa de velhos burgueses

não me recordo de um momento

de êxtase livre de culpa

ou de uma satisfação

não fadada à mentira

sou fruto do que fui

no fundo ainda sou

aquela criança.

Nenhum comentário:

Postar um comentário

inútil

esse mito outrora rouco explode colide com a terra vermelha do planalto central agoniza depois de grave acidente e jaz encolhido, torto numa...