quinta-feira, 26 de março de 2026

inútil


esse mito outrora rouco explode

colide com a terra vermelha do planalto central

agoniza depois de grave acidente e

jaz encolhido, torto numa cidade satélite

vejo que meu grito foi um eco que o tempo

dispersou e levou para longe de mim

para longe de todos os ouvidos inertes

e que minha retórica minguou, falhou feio

ah, essa rebeldia de mil faces calou aqui

já não lateja impune como antes e ignora

que a estrada é tão longa

que o tempo é tão pouco

percebo que as falas mais agudas silenciaram

recolhidas e reféns de gavetas esquecidas

ou dispersas em livros com páginas amareladas

na frieza de bibliotecas públicas ou particulares.

quarta-feira, 25 de março de 2026

das dores e nãos


ah, meu amor, é o motivo dessa lágrima 

desse sufocar, desse roxear da pele 

quantas vezes quis seu beijo 

e calei na ânsia por saber medir 


e não pedir a distância que nos separa 

é ínfima e enorme em dor, 

somos atemporais é o sacrifício 

para qualquer redenção 

e traz em seus olhos 

todos meus desejos 


como é solitário viver acompanhado 

dividido pelo suplício 

do silêncio querendo gritar 

o que pulsa por dentro 

o que ferve a língua 

e engasga o vento 

segunda-feira, 23 de março de 2026

na vigilância discreta


quem sabe me esqueça

do que lateja

dores infindas de cobiça

carimbadas em olhos negros

sem retina

sem menina

eu

vazia por vontade

a angústia

de tua dinastia

avesso de overdose

sou embuste ambulante

sem personalidade

falo-te de teus rastros

dos hinos de adorar

dos mastros que fincaste

em minhas artérias

não há bandeiras

nem frontes

figas ou figueiras

nessa seringa

de ser

por hora

insira o silêncio

nesse tumbeiro de sonhos

que tornou-se paralisia.

domingo, 22 de março de 2026

poema da desimportância


nada está em ordem

o hábito não é bom

e o silêncio é maculado

os mantras de Manoel de Barros

ecoam nas desimportâncias

e estou diante de mim

com braços sobre meu peito

 

tudo é menor

e desimportante

por certo somos

coisas cheias

de um vazio redundante

como se todo o tanto

mal bastasse

 

meu diário é prólogo

de desimportâncias valiosas.

 

sexta-feira, 20 de março de 2026

há sombras


deleite de meia

noite e meia

passeiam em quarto

minguante eu

vazam pelas paredes

e se enforcam

na luz

que vem de fora

quinta-feira, 19 de março de 2026

o segredo das matrioskas

hei de propagar com fé

idílica e profana seu nome nada pagão

vangloriar a assimétrica imperfeição

e as dádivas ocultas da vida

ouvi o dono da noite num chamado

ecoado da sua cantiga vívida que modificava urais

pedindo que ressoassem sua obra pura

hei de ocultar-lhe em versos visíveis

livres da visão atormentada dos que

não têm louro ou serventia

entoarei uma divindade moura que ele ostenta

e dirão que deuses são mudos

para manter o mistério do silêncio

e cada vez que calo é seu o segundo morto

o que sinto é hábil tom destoante

o seu nome distinto e escondido em si.

terça-feira, 17 de março de 2026

o sonho de Lilith


veio pela fumaça cavalgando Cérbero

altiva e por hora a chamarei de Hécate

a guardiã escarlate das portas do inferno

há quem diga que tem asas

que seus cabelos longos

e vermelhos como fogo

trazem um aroma de inexplicável

de sêmen e mirra

o desejo passivo nos olhos

travestia seu coração de pedra

afeita a tomar falos em contrações

que de tão violentas eram castrantes

quem há de se olhar refletido

nesse espelho de mil faces

sem que a deseje e se sinta impotente

enquanto o peito esmagado arfa

e o sorriso debochado estremece?

domingo, 15 de março de 2026

horas inteiras


o movimento dos ponteiros de segundos

perduram entre os sorrisos falsos

sobre o piano calado

todos datam a eternidade

 

quem dera a velocidade dos carros

desse o compasso do tempo

preso nas celas por cordas

de minha goela seca

 

não há amor na revolução

há apenas retratos mudos

desbotados pela distância

e por lembranças deturpadas

 

quem dera essas balas do tambor

de meu revolver fossem palavras

e estourassem o vazio do tic-tac

que trago em minha cabeça

sábado, 14 de março de 2026

desvario


não vou dizer que não sofri

que não chorei noites inteiras

no escuro e sufoquei meu grito

nos cantos do travesseiro

para calar o sofrimento e fingir

o problema não é o sonho

nem as ilusões que ele promove

quando se está entorpecido

o que rasga mesmo é a realidade

o crescer todos os dias

não vou dizer que não sabia

quando me diziam: “parado aí”

nem direi que não via

quando me esperava dormir

para levantar da cama e fugir

o problema não é a dor

nem as lágrimas que ela aflora

quando se está entorpecido

o que rasga é a realidade

o morrer todos os dias

não vou dizer que não aprendo

que me resumo apenas ao existir

mas essa existência fria

só traz horizontes tardios

e um jeito novo de engolir o choro

sexta-feira, 13 de março de 2026

hora das horas


confesso que amei-te

por míseros três dias

e duas noites

talvez use esse tempo

pra causar-me mais

alguma ferida

e debaixo de meu seio

esquerdo ainda amo-te

vinho e tinta

nessa noite de lua

quem nos fará mal

além de nós mesmos

se somos invencíveis?

quarta-feira, 11 de março de 2026

sangria

 

estendi meus braços baldios

como quem devolve a vida

beijei-te o colo e tuas feridas

estanquei tua dor e teus vazios

e como quem nada quer saí

numa fuga doce e insólita

mas desorientada caí no chão

no levante de poeira chorei

tomei-me como forte

continuei fraquejando

e sem erguer os olhos

foi saindo

é este cancro que me dilacera

essa vontade desmedida

que berra como latejar

de doença bandida que corrói

e tuas feridas me tomando

sem tábuas de salvação

te vi saindo

e trancava a porta da frente

terça-feira, 10 de março de 2026

ironia


meus erros definem

quem eu sou

diz se há glória

ou fracasso

eu digo que uma visão

dentro de um limite

cognitivo

jamais poderia

cercar o certo e o errado

ou qualquer outra

dicotomia

segunda-feira, 9 de março de 2026

mortalhas




vê com altivos olhos
as faixas que se dobram
e se elevam

ao estágio mais puro

do nada

navegue pelo caos interno

onde as brumas já não

levam ao cais

ou embalam o espírito,

faminto

percebe que é tão pouco

o que detém e que mesmo assim

consegue decepcionar todos

que esperam algo de ti,

fracassado

mal pode supor que o intento

é forte quase muralha

e a vontade é fraca

peito-papel na água,

mágoa

e são tantas calhas

pois o espírito crê

e a carne é falha

velha e gasta,

canalha

domingo, 8 de março de 2026

rendez-vous


de minha origem 

pouco sei

pai comerciante

mãe costureira

ele doava o tecido

e ela o costurava

talvez por isso

o alinhavo

linhagem

de casta indefinida

nada sei. 

sábado, 7 de março de 2026

sexta-feira, 6 de março de 2026

quinta-feira, 5 de março de 2026

Medusa


as pétalas de seus olhos desceram

por minha rubra face

instalaram-se entre minhas clavículas

como aperto de polegares em asfixia

ver o que vi em todas as outras

e não supor que era assim tão óbvia

só nos ferem os que amamos

mea culpa, não tomei nenhuma precaução

quebro uma promessa que fiz e peço

que me deixe agora

que não congele minhas resistências

nem estilhace o que restou

um espinho ainda está na garganta

não me olhe mais, nunca mais

quero permanecer pedra

por saber que mal maior é a esperança

terça-feira, 3 de março de 2026

infecção


se reclama do excesso

posso dizer que sou réu confesso

fazer o que de maneira justa?

isso existe ao me olhar

na lona

com sua glória-augusta?

prepara-se então pra voar solo

que esse é o efeito

de quem pisa pra espatifar

e se acha que me afasta

saiba que não saio do lugar

só mudo a forma de agir

lembranças?

elas são lindas em álbuns

e só isso me sobra

e não é de hoje

mas o dito sim, me ultraja

supõe que choro por perdas?

não, não, meu caro

choro para encontrar-me.

segunda-feira, 2 de março de 2026

subentendido


doeu, eu sei, mas isso é ter forçado

e esse intento feito tinta

em tela nova

deixa pra pensar

amanhã pela manhã

vem povoar meus pensamentos 

correndo o risco de ser abstrato

que amores anteriores foram

os atuais são

e os futuros virão

deixa a vida seguir seu rumo 

não tem mais sentido o passado

vem que as coisas urge

me estar livre é apelo antigo

para um presente que nos tem.

inútil

esse mito outrora rouco explode colide com a terra vermelha do planalto central agoniza depois de grave acidente e jaz encolhido, torto numa...