sexta-feira, 27 de fevereiro de 2026

nobre


grave é o som

que me inspira

nesses pequenos 

versos confusos

por vezes obtusos

que habitam a calma

fora de controle

querem falar 

do que desconhecem

fora de controle

enfermo o Dó se dobra

e o Si de uma cantata simples

chora por não mais ecoar

bradam acordes cansados

de um contrabaixo

que esqueceu de orar

tudo é silêncio

quinta-feira, 26 de fevereiro de 2026

ilusória


deixa, deixa

quero satisfazer você

sentir o que pode fazer por mim

reconhecer seu orgulho


volta comigo para dentro

traz um pouco de si

os dedos longos para notas curtas

da falência múltipla da alma

pois quando compactuar com seu nada

deparar-se com o vazio

desdobre seus dedos e toque

o que há de perfeito


desculpe-me as seringas ou as pipetas

a liberdade está em frascos

de barbitúricos que não

posso comprar

o passado está próximo

de uma rua com nome

de algum político cretino

que morreu há muitos anos

alonga seus braços

que estou bem perto

onde pode me alcançar


mas não sou real, nem inteira

estou muito além do horizonte azul

onde suas botas pretas não alcançam

e no meu céu que é seu inferno

por um momento seremos felizes

quarta-feira, 25 de fevereiro de 2026

monte megido


no vale da decisão

tombo de assalto

meu olho esquerdo

que ignora todos

os filhos do solo 

direito julgo

o grande vencedor

que trará redenção

mas a água não benze

pobre insolente sou

tudo que me é grato

salta do lado errado

e alimenta meu ego

essa satisfação é

sinônimo de felicidade

não sendo isso o Éden

hei de desejar o inferno

e lutar nas linhas

contrárias pelo mal

no monte megido.

terça-feira, 24 de fevereiro de 2026

meias e verdades


poderia dizer que gosto

quando me machuca

satisfazer uma fantasia

sua ou minha, já nem sei

e não importa mais

para que suportar nas entranhas

as palavras mais estranhas

que a boca nunca pronunciará?

enquanto meu corpo implora

o flagelo e a punição

a mente se perde entre

passado e futuro

conceitos da carne escura

o nada e quem sabe o desdém

o silêncio suprimo desses versos

e atenho-me ao sossego

ao gozo embaraçando lábios

entre pelos pubianos

poderia dizer que gozo

quando me escuta

satisfazer uma fantasia

sua ou minha, já nem sei

e não importa mais

segunda-feira, 23 de fevereiro de 2026

mar negro


é meu nome, nada mais que um nome

entre tantos iguais, tantos

escolheu como quem recolhe areia

deixando-a escorrer entre dedos

é meu nome fluido e constante

segredado pelas ondas

que chamam-me baixinho

temendo serem descobertas

jaz meu nome gravado com seus passos

apagado na praia que resolveu chamar de nossa

onde a água salgada é calma

e a tranquilidade ainda nos aflige

prisioneiro


o tempo passa rápido

foge de mim

vivo me enganando

dizendo que ele está do meu lado

não aguento mais

cair sobre quadros

de involução.

domingo, 22 de fevereiro de 2026

comi e recomi a palavra


por tantas vezes mastigada

quis engolir e não pude

e ela ecoou feia e rude

mal tratando o que senti

carcomi.

sexta-feira, 20 de fevereiro de 2026

concepção


o calor era intenso

mal pude conter

a náusea e a dor 

daquilo rasgava

o peito, os olhos,

a vulva

pari palavras

imensas, gêmeas

e agudas 

palavras

que ejaculastes

dentro de mim.

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2026

terça-feira, 17 de fevereiro de 2026

fixação


é o torpor e não há comando

seu corpo e o meu juntos é hecatombe

e consigo o que quero

acidez subjetiva e atômica

que transborda

não há fronteiras

é um mundo encravado noutro

não cabe adjetivo

somos mesma matéria escura

a nervura e o tremer do músculo

que na carne mesmo morta vibra

não há fotografia que revele

o que está tatuado em nossa pele

ou um retrato real e devasso

que ousaria expor-nos

na parede da sala de jantar.

domingo, 15 de fevereiro de 2026

déjà vu


a lembrança que me veio hoje foi da noite que passei em claro, velando seu sono. seus cabelos debruçaram sobre a face branda e por vezes sorria. ainda me afeta o fato de olhar você dormindo e me pergunto como pode um menino repousar dentro de um corpo de homem. a respiração era forte, constante e o ar estava cheio de esporos de Manoel de Barros. sou suspeita, mesmo me deletando nesse olhar lascivo, já me apaixonei por poetas do século passado, engravidei de línguas mortas e palavras que já não são ditas. a gestação não termina nunca e vivo parindo poesia etérea e enganos.

terça-feira, 10 de fevereiro de 2026

álbum de fotografias


quanta sorte sonhar quando se é verde

não gosto de falar de minha infância

não há atos nobres nessa época

o que tenho certeza é que queria

crescer logo e me livrar da caolhice

do manco de pés tortos

da aparência desengonçada

e da opressão dos adultos

mal sabia eu que a miopia aumentaria

que os pés continuariam tortos

que a aparência piora com a idade

mal sabia que a opressão maior

é a da realidade e não dos velhos

mal sabia que ser cuidada e oprimida

é mais acolhedor que ser ignorada

ou ser preterida

não me recordo de tempos para sonhar

havia um medo velado em meus olhos miúdos

e um silêncio imposto

naquela casa sempre cheia de visitas importantes

era proibido correr

dizer palavrões ou se manifestar

ali criança não tinha vez

pular o muro e viver uma alegria clandestina

rendeu-me ora a cinta ora a palmatória

quem dera ter tido a glória

de saborear da liberdade

luxo seria ser uma criança

numa casa de velhos burgueses

não me recordo de um momento

de êxtase livre de culpa

ou de uma satisfação

não fadada à mentira

sou fruto do que fui

no fundo ainda sou

aquela criança.

inútil

esse mito outrora rouco explode colide com a terra vermelha do planalto central agoniza depois de grave acidente e jaz encolhido, torto numa...