enquanto inventa o cais
estou à deriva
enquanto inventa o caos
sou morte lenta
e se por acaso a mancha
vermelha no vestido
insistir
pela morte violenta
que causara
mira a penumbra
e meus olhos banais
que se inventa guerras
hei de sofrer de ais
enquanto inventa o cais
estou à deriva
enquanto inventa o caos
sou morte lenta
e se por acaso a mancha
vermelha no vestido
insistir
pela morte violenta
que causara
mira a penumbra
e meus olhos banais
que se inventa guerras
hei de sofrer de ais
de maneira tão prolixa
com essa força na estrutura?
como se fosses dura
e ao mesmo te dobras
em meu cerne venal?
explícita revelas o riso
como quem quer morder
e doas a rachadura
como quem perpetra o caos
ilícita te entregas em becos
nada nobres e de beleza surreal!
poderia ser livre
nenhuma asa quebrada
preso por vontade própria
fui mais um cativo
foi só uma noite
talvez um dia
mantive-me apertado
enquanto pude
entre seus abraços
pés na terra
retinas nas nuvens
tudo tão lindo
tanto a dizer
e conjugar a liberdade:
eu livro você
e assim me liberta
esse mito outrora rouco explode
colide com a terra vermelha do planalto central
agoniza depois de grave acidente e
jaz encolhido, torto numa cidade satélite
vejo que meu grito foi um eco que o tempo
dispersou e levou para longe de mim
para longe de todos os ouvidos inertes
e que minha retórica minguou, falhou feio
ah, essa rebeldia de mil faces calou aqui
já não lateja impune como antes e ignora
que a estrada é tão longa
que o tempo é tão pouco
percebo que as falas mais agudas silenciaram
recolhidas e reféns de gavetas esquecidas
ou dispersas em livros com páginas amareladas
na frieza de bibliotecas públicas ou particulares.
ah, meu amor, é o motivo dessa lágrima
desse sufocar, desse roxear da pele
quantas vezes quis seu beijo
e calei na ânsia por saber medir
e não pedir a distância que nos separa
é ínfima e enorme em dor,
somos atemporais é o sacrifício
para qualquer redenção
e traz em seus olhos
todos meus desejos
como é solitário viver acompanhado
dividido pelo suplício
do silêncio querendo gritar
o que pulsa por dentro
o que ferve a língua
e engasga o vento
quem sabe me esqueça
do que lateja
dores infindas de cobiça
carimbadas em olhos negros
sem retina
sem menina
eu
vazia por vontade
a angústia
de tua dinastia
avesso de overdose
sou embuste ambulante
sem personalidade
falo-te de teus rastros
dos hinos de adorar
dos mastros que fincaste
em minhas artérias
não há bandeiras
nem frontes
figas ou figueiras
nessa seringa
de ser
por hora
insira o silêncio
nesse tumbeiro de sonhos
que tornou-se paralisia.
nada está em ordem
o hábito não é bom
e o silêncio é maculado
os mantras de Manoel de Barros
ecoam nas desimportâncias
e estou diante de mim
com braços sobre meu peito
tudo é menor
e desimportante
por certo somos
coisas cheias
de um vazio redundante
como se todo o tanto
mal bastasse
meu diário é prólogo
de desimportâncias valiosas.
enquanto inventa o cais estou à deriva enquanto inventa o caos sou morte lenta e se por acaso a mancha vermelha no vestido insistir pela mor...